sábado, 22 de janeiro de 2011

Por hoje: o Amor


Ei...
Sabe o amor?
Não?... Sabe sim...
Presta atenção:
Quando tu acordas
E abre os olhos
E percebe que estás respirando
E percebe que podes andar
E percebe que podes sorrir
E podes chorar
E podes comer, se quiseres comer
E podes, até, dormir novamente
É o amor... de Deus
Só te mostrando que vives.
Quando tua mãe te liga
Só para saber onde estás
Só para saber se estás bem
Só para pedir que mantenha contato
É o amor... de mãe
Que cuida e te protege.
Quando teus amigos te procuram
Só para contar uma novidade
Só para desabafar uma mágoa
Só para pedir um conselho
Só para dizer que sente saudade
É o amor... de amigo
Mostrando que és importante para alguém.
Sabe quando recebes aquela mensagem
Inesperada
Dizendo que no mundo tem alguém que diz
Que muito de ama,
Como já cantou Zeca Baleiro,
É o amor... de amante.
Revelando que és apaixonante.
Estou feliz.
É o que tem para hoje!
Sabe o amor?
Feche os olhos...
E sinta, apenas.


Néli Lima
21 de janeiro de 2011        

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

18:00


Um dia
Caminhava desatento
Um homem e suas dívidas.
Perdera a ideia de tempo,
Perdera a rota do norte.
Sentia uma dor
Dor de não ter consumo
De carro novo
De casa nova
De salário melhor.

Uma vez o poeta
Falou de um Bicho
Que remexia o lixo
E se misturava a imundície,
Procurando comida.

Um dia
Caminhava desatento pela rua
Um homem que não conhecia
O poeta nem sabia sobre tal Bicho.
Mesmo não conhecendo os versos
São-lhes apresentadas
A mulher e a filha daquele Bicho
Que surgem e procuram,
Na mesma imundície,
Uma já consumida comida.
Pois nem tão consumida casa
Nem tão consumido salário
Há!

Aquele homem
Que caminhava desatento,
Sofrendo da dor de ter tudo,
Sentiu escorrer as lágrimas
Banhando a Ave Maria
Que regia toda aquela cena.

Néli Lima
17 de janeiro de 2011.

(o poeta referido: Manuel Bandeira, poema O Bicho)
(imagem: Paul Scala - roupas de saco de lixo, Michelle Jank, designer)

sábado, 15 de janeiro de 2011

Ouça




Deixe que eu te conte uma coisa
Não é segredo
Não é surpresa
Nem é inédito.
Deixa que eu te conte uma coisa
Que muitos já viram
Que muitos já ouviram
Que muitos já conhecem.
É só uma coisa que você já deve saber
Mas que eu preciso que ouça.
De minha boca não sai mel
De minhas mãos não surgem casas
De minhas costas não nascem asas
Da minha vida não brotam sonhos.
Só queria te contar
Que meus sonhos adormecem comigo
E transformam-se em recordações
Sempre que a realidade aflora.
Só queria te contar
Que minhas asas ficaram
Prezas nos meus sonhos
E eu só as encontro
Quando penso em você.
Só queria te contar
Que quando estou só
Ouço minhas asas baterem forte.
Sinto minhas mãos enlouquecerem
A criarem casas.
Saboreio o mel que escorre de minha boca
Recordando o teu beijo.
Só queria te contar que o amor
Veio aqui em casa
E disse que eu te esperasse
Pois tu és a minha razão.

Neli Lima
15 de janeiro de 2011.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ser Destino



Percebi que é mais que desejar.
Percebi que não é apenas ter.
Percebi que não é liberdade.
É desejar ter e ser.
É liberar e sentir.
Cada segundo engatinhando
Em direção ao seguro
Momento de tonar-se destino.
Notei que é menos que desejar.
Notei que é menos que apenas ter.
É a singela consciência de ser.
É o conhecido perfume do ar livre.
Para cada segundo tornar-se destino
Sutilmente
Unem-se em elos de recordações.

Trança de sonho líquido
Que marca um rosto.
Não é solidão,
Mas é medo de o ser.
Se tens e sentes... Sou!
Se desejas e sentes... Sou!
Se mais ou menos... Sou!
Sou porque tenho e sinto.
Sou porque desejo e sinto.
Sou porque nem mais e nem menos.
Não é liberdade
É medo de não o ser.
Porém
Casa não seja
Sou cada segundo que engatinha
Em direção ao momento certo
De tornar-se destino.


Néli Lima
6 de janeiro de 2011.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O que fazer?



É apenas uma dor
Só isso
Uma dor, somente.
Para quê tantas lágrimas?
Para que tanto drama?
Dor que vem
Mas que vai.
Faz escorrer salgada lembrança
Faz derramar ausências sentidas
No silêncio de um suspiro
Sentindo falta de uma sombra
Entrona seu lamento
Coroa sua angústia
Diploma a sua dor.
Emerge de sua alma
A mais constante vontade de não ser.
Grita ao mundo seus sentimentos
Sinceriza seu pesar.
Compaixona seu ser.
Quer correr
Quer voar
Quer flutuar
Mas não quer mais sofrer.
Como sarar tanto sofrimento, então?
Escondendo de si?
Fugindo de si?
Mascarando-se?
É apenas uma dor.
Uma dor, somente.
Para quê tantas lágrimas?
Para quê tanto drama?
Vai dormir.
Vai calar-te!
Fecha-se em si e esquece-se!


Néli Lima
04 de janeiro de 2011.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

O Segredo



Agora estou a sós
Não tem mais ninguém próximo a mim
Ouço, apenas, a chuva surda cair lá fora
Sim. Chuva surda
Pois ela não ouve a mim
Que peço a sua atenção.
Grito. Mas de nada adianta.
Angustias dominam a clausura!
Também não ouço os meus gritos:
São internos.
Ninguém pode ouvi-los.
Aliás, ninguém Deve ouvir.
“Ssssss...!”
Vou falar baixinho
A chuva silenciou-se
Decidiu me ouvir...
Apenas ela vai saber.
E o que há de secreto?
Um dia alguém pode descobrir (ou não).
Agora a chuva já conhece o meu segredo.
E só ela, com sua surdez barulhenta
É capaz de esconder as confissões.
Ainda estou a sós
A chuva continua caindo e mais forte
Porém, agora, espalhando o meu segredo
Silenciosamente por onde passa.


Néli Lima
31 de agosto de 2006.